quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Precisamos falar sobre os Black Blocs

Durante o período de quase um ano, entre 2013 e 2014, e depois de acompanhar mais de 70 manifestações, pude conhecer boa parte das pessoas que fizeram parte delas, ou pelo menos, sei bem mais que a maioria dos veículos de comunicação. Por isso, me irrito um pouco com o grave desconhecimento de alguns amigos meus sobre o assunto. 

Quando os Black Blocs protestam contra o PT, Haddad e Dilma, quase nada sai na imprensa. Só a parte do “Fora Alckmin” aparece.

Os líderes desses black blocs já devem ter mudado nesta altura do campeonato, mas na época em que eu ia às manifestações como observador, as três figuras mais influentes tinham idades de 16, 17 e 19 anos, todos de periferia. Destes, dois procuravam emprego em junho de 2013 e um terceiro pediu as contas de onde trabalhava porque havia virado anarquista convicto. Sua mãe, dentro do período de um ano, foi buscá-lo na Fundação Casa mais de 6 vezes.

O que alimenta esta fúria, este ódio que existe nas ruas é a falta de crescimento econômico. Estas manifestações não são orquestradas pelo PT, como se imagina, mas são sintomas de uma doença grave na sociedade. Todos estes jovens foram criados sem a presença de um pai de família. Suas mães, até onde pude descobrir, apoiam que os filhos se manifestem. Me parece até que eles são os machos que as mães nunca tiveram…

Ninguém reparou, mas simultaneamente ao surgimento dos Black Blocs, teve também os Rolezinhos, como proposta de ação anticapitalista dentro de shoppings. Um olhar atento permite que a única diferença é que o Black Bloc anda mascarado enquanto que os jovens dos rolezinhos não andavam mascarados. Naquela época, Netinho de Paula conseguiu cooptar 2 dos líderes dos Rolezinhos para a organização “Juventude Comunista”, sendo que o terceiro, que se recusou, acabou morrendo num baile funk… coincidência

O PT nunca descobriu quem são os líderes do Black Bloc. Não sei se a Polícia Civil sabe, acho que sim. A PM sempre soube. Em algumas vezes eles deixaram de deter estes rapazes, ao que me parece, de propósito. Noutras, espancaram um deles até cair no chão, e foram “visitar” a casa dos outros dois, sendo que a irmã de um deles acabou ganhando um soco na cara porque não queria abrir a porta da casa sem ordem judical, segundo eu soube.

Ainda em 2013, a Polícia Militar fez uma primeira visita e eles próprios reconheceram que a investida teve propósito “amigável”. Nestas visitas, os PMs teriam pedido que parassem de xingar os policiais quando estivessem em serviço e que parassem de quebrar as coisas nas ruas. O pedido não foi atendido.

Estes jovens, basicamente, se dividem em dois grupos o black bloc propriamente dito, composto por jovens com alguma insegurança ou insatisfação em suas vidas particulares. Mas há ainda o “Front Bloc”, que são as pessoas com disposição à violência. São estes que chegam com paus, pedras, estilingues, canos, molotovs, rojões e toda sorte de objetos com propósito de ferir. E, quando não levam é porque sabem que vão arrumar alguma pedra numa caçamba.

Estes do Front Bloc são a elite. Ele tem influência sobre alguns amigos e os traz para as manifestações. A maioria destes moleques estuda na rede pública. Até certo ponto, organizam-se em “células”. Por exemplo, toda vez que um moleque é arrastado até a delegacia de policia, ele sai de lá com um boletim de ocorrência, que depois põe no Facebook e exibe como uma espécie de diploma de graduação, como quem chega para seus amigos e diz “vejam, eu lutei contra o sistema”.

As balas de borracha e gas lacrimogenio são provavelmente a pior forma de conter estes caras. Cada marca feita no corpo é exibida quase como uma medalha. Por outro lado, acho que o melhor método mesmo é atravez do grito. Certa vez vi um comandante do Choque berrar para um moleque que ameaçou quebrar uma vidraça com um pau. Imediatamente, o PM percebeu que ele estava querendo tomar a liderança e berrou “LARGA ESSA MERDA!”. O moleque, humilhado perante seus amigos, não fez outra coisa senão obedecer o PM.

O PT fez suas tentativas de descobrir quem eram estes jovens. COlocavam militantes do PT no inicio das manifestações para olhar, conversar e fazer amizades. A maioria nem chegava perto deles porque já vinham com camiseta vermelha do partido, e eles detestavam isso. A bem da verdade, quando tinha alguma manifestação “anti-copa”, os black blocs eram detestados pelo pessoal do PSTU PSOL e PCO e vice versa. Brigas entre Black Blocs e alunos da USP são provavelmente mais frequentes do que com a PM.

No que diz respeito ao MPL, todo mundo se lembra de quando a Dilma chamou a lider para uma reunião em Brasília em 2013, esta voltou de lá e resolveram parar com as manifestaçoes. Os Black Blocs continuaram sozinhos por quase toda a metade de 2013. Existe uma estranha confiança entre o MPL e o Black Bloc. O MPL não é própriamente anarquista, mas conta com seus próprios punks. Na verdade, quando quiseram trazer o Movimento Passe Livre para São Paulo, uns dirigentes se encontraram com uns punks que eram de um tal grupo chamado Movimento Punk Libertário (MPL). Mudaram o nome, mas permaneceram com a sigla.


O PT jamais quis estas manifestações durante o ano eleitoral e um cientista político sincero analisaria que estas manifestações fizeram mal para o PT e foi bom para o Alckmin (que estava com imagem politica comprometida por causa do cartel). A Dilma mandou o ministro Gilmar Mendes para fazer duas reuniões em São Paulo, ambas organizadas na Casa de Portugal, com propósito de atrair estes black blocs para a reunião. Alguns foram, levaram faixas e começaram a agitar dentro da reunião. Enfim, não há o que se enganar a respeito os black blocs podem ser os militantes que o PT sempre quis ter, mas definitivamente o PT é o partido que eles mais odeiam.

Quando alguém toca neste assunto, e digo aquilo que sei em função de ter sido testemunha dos fatos, com frequencia sou confundido como uma espécie de porta-voz destas pessoas: EU NÃO SOU ANARQUISTA e sim, abomino a violência que eles promovem.