sábado, 16 de novembro de 2013

15 DE NOVEMBRO: UMA ORGIA DE ASSASSINOS E DITADORES

Chamam hoje de "proclamação da república" aquilo que na verdade foi o PRIMEIRO GOLPE MILITAR da história. Uma mescla de militares positivistas e alguns da classe econômica representada pelos fazendeiros, uniram-se em total confluência de interesses. Para os militares, o país deveria ser dirigido por eles, sem eleição alguma, pois eles delegavam para si o conhecimento do que era "bom" para o país. Para os fazendeiros, que se rebelaram contra Dom Pedro II por ele ter libertado os escravos, o imperador deveria cair como ato de vingança em face do fato deles não ter sido indenizados pela "perda de sua propriedade"... 

Este grupo, pequeno, altamente organizado, invadiu o palácio do imperador e na mesma noite o expulsaram do país. Simples assim. 

Marechal Deodoro, executor do primeiro golpe militar, teria dito naquela noite que haveria plebiscito para que o povo definisse qual rumo o país tomaria. Tal plebiscito só viria ocorrer em 1993, 104 anos após o golpe. 

Floriano Peixoto mais que certamente encabeça a lista dos piores assassinos e terroristas de estado da história do Brasil. A alcunha de "Consolidador da República" foi forjada pelos militares é a maneira eles como se referem ao Floriano dentro dos círculos militares e - obrigatoriamente - nos livros de história. 

Ambas as figuras, Deodoro e Floriano, eram delirantes, mal sabiam raciocinar objetivamente, construíram em torno de si uma abstração da realidade, de tal forma que vieram prometer à população (e eles próprios estavam convencidos disso), de que ainda no primeiro mandato da presidência da república, o país perceberia imediatos avanços econômicos, a nação iria se modernizar, deixando-se de ser um território agrário e passando a ser uma nação industrial, como a Inglaterra, e seria "o país do futuro". 

Entretanto, a população não percebia a situação desta forma. O apoio esperado da população, por parte do primeiro governo da república velha, não aconteceu. Pior, os impostos foram elevados, sob o motivo de uma suposta necessidade de financiar os projetos megalomaníacos da presidência da república, dos quais nem os próprios orquestradores do golpe divulgavam assertivamente quais eram. De fato, a única coisa que foi realmente bem financiada foi a compra de mais armamentos e munições, cujos primeiros lotes foram empregados na modernização do exército e na Guerra de Canudos. Sobre esta revolta popular, um grupo de 25 mil pessoas se reuniu no interior da Bahia como forma de se defender dos cobradores de impostos republicanos, que agiam de maneira violenta e saqueadora contra a população. 

Numa época de terror como aquela, e não distante da atual, pelo menos houve tempo para a liberdade de imprensa fazer uso do termo "florianismo" (que antecedeu ao "getulismo" e "lulismo") foi cunhado pelos críticos ao governo, de modo a significar o político populista, pretensioso ao papel de "pai do povo". O que é mais revelador sobre o (mau) caráter de Floriano Peixoto quando mandou assassinar, a sangue frio, centenas de pessoas na cidade de Nossa Senhora do Desterro, em Santa Catarina, cidade esta que foi renomeada para Florianópolis, num gesto de humilhação moral e derrota da revolta da Armada. 

Mas apesar de tudo, os dois primeiros presidentes souberam de uma forma de conquistar a opinião da população. A dedução do governo federal frente a esta problemática foi simples: se não têm meios de convencer alguém pelos argumentos, compre seu caráter. Uma vez estando Pedro II, famoso e conhecido por condenar a corrupção, finalmente fora do país, começou-se assim uma avassaladora orquestração de vagabundos e párias que se tornaram funcionários públicos do governo, sem desempenhar qualquer tipo de serviço público. Sobre a liberdade de expressão, vale ainda ressaltar que reclamar ou falar algo contra sobre o governo passou a ser uma atitude criminosa. Jornais de oposição haviam sido fechados. Jornais apoiadores do governo, mantiveram-se abertos (o "Estadão" foi um deles). Em suma, pessoas contrárias a república passaram a ser presas e interrogadas, por crime de opinião. 

As instituições policiais, rapidamente desenharam um perfil do que seria o criminoso público. Havia, em cada sede de polícia, um desenho de uma pessoa, meio negra e meio branca, com feições assustadoras e convincentes a qualquer um de que se assemelhasse àquela figura deveria ser preso pelo criminoso que supostamente se tornaria um dia, conforme doutrinava o governo. Uma política higienista estava se iniciando. No centro da capital do país, no Rio de Janeiro, vias públicas bem decoradas e bastante assemelhadas aos estilos europeus eram proibidas de circulação àqueles que estivessem mal vestidos ou fossem de "tal raça" considerada nojenta pelos detentores do poder. 

Com o tempo, o governo entendeu que não era apropriado enviar opositores políticos às prisões. Os hospícios passaram então a ser o destino daqueles que demonstravam não concordar com o ponto de vista do governo. Para os golpistas do dia 15 de novembro, qualquer um que não trabalhasse e não se voluntariasse para o bem do país, tal como definido pela presidência nas décadas seguintes, devia ser louco. Qualquer um com autoridade suficiente para tal podia analisar o caso de um acusado e assegurar o seu destino triste: juízes, tenentes, majores, prefeitos... nenhuma opinião médica era considerada. 

Enfim, não vejo motivos para que esta data seja comemorativa. Provavelmente a maior parte do país se sente na mesma condição, motivo pelo qual, quem teve condições, foi tomar sol na praia. A abundância da presença policial nas ruas de São Paulo no dia de hoje torna simbólica ao significado de horror asqueroso que a data ostenta. Prisões aleatórias, racismo por parte do Estado, mídia sendo perseguida, elevação de impostos, vagabundos no poder, enfim, são tantas semelhanças de um problema antigo, mas ainda muito atual.