terça-feira, 8 de outubro de 2013

O dia em que viraram a viatura da polícia


No dia 7 de Outubro de 2013, o ato de protesto foi uma mescla de pautas e participantes. Comparecerm professores, bancários, ativistas de esquerda e adeptos da tática Black Bloc. Os temas eram a defesa da educação, apoio aos professores em greve no RJ, apoio aos bancários em greve em SP, desmilitarização da polícia, fim do estado e contra o capitalismo. Também houve palavras de ordem contra os governadores de SP e RJ, a Copa de 2014.

Uma aglomeração formou-se ao lado do Theatro Municipal de São Paulo. Entre bandeiras vermelhas e negras, cerca de 400 pessoas saíram pelas ruas do centro.

          “O professor
          É meu amigo,
          Mexeu com ele,
          Mexeu comigo.”

O trânsito ficou congestionado nos locais por onde os manifestantes passavam. Em determinado momento, a manifestação parou na Rua da Consolação, ao lado da praça Roosevelt. Segundo informações não confirmadas, uma outra manifestação havia partido do vão livre do MASP e o intuito era aguardar ali para juntar as duas manifestações e ir ate a praça da república, sendo este o destino final. 

Entretanto, isto não foi o que aconteceu e esta outra manifestação já se encontrava no destino final. Quatro ônibus foram pichados com os dizeres: “Fora PT!”, “Abaixo a Ditadura!”, “Fogo na PM!” e “Luto pela Educação”. Uma senhora, que estava também se manifestando, chegou a dizer para as pessoas que estavam dentro de um dos ônibus: “ô pessoal, vocês nem parecem brasileiros, sai desse ônibus, vem lutar pelo Brasil”. Um homem esgueira sua cabeça para fora do ônibus a fim de assistir o que estava acontecendo. A mesma senhora lhe diz: “É bom o seu salário, né moço? Tá ganhando bem né? Você está vivendo num país bom”.

Ao chegar na praça da república, um total de cerca de 200 pessoas já estavam lá, e policiais militares também, posicionados em frente ao prédio da Secretaria de Educação de SP. Confira as imagens do vídeo abaixo:



Não se sabe ao certo o que começou a confusão, ou seja, se foram os manifestantes ou os policiais militares. Uns disseram que os policiais não aguentaram as palavras de ordem contra eles e iniciaram o ataque. Outros me afirmaram ter visto policiais à paisana atirando pedras contra a multidão. Um terceiro ainda me disse que viu um manifestante com uma mochila cheia de pedras, supostamente usadas para tal fim. Como sempre, por mais câmeras que existam nestas manifestações, é sempre difícil apurar qual foi a verdade. Ou, de repente, a verdade seja tudo isto, um ataque simultâneo.

Enquanto a multidão estava em frente ao prédio, foram disparados ao menos 6 cargas de gás lacrimogênio e 4 granadas (provavelmente de efeito moral, mas não é possível afirmar com precisão). A multidão rapidamente se dispersou, mas manteve-se nas redondezas. Pedras foram atiradas contra a formação de policiais que estava em frente ao portão do edifício público, mas eles se protegeram com escudos.

Eu mesmo fui vitimado pela nuvem espessa de gás que se formou no centro da praça, enquanto tentava registrar este momento. Aguentei o máximo que pude e depois saí correndo, como outras pessoas. Para quem não conhece os efeitos deste tipo de arma, explicarei: você não consegue respirar; é como se fumasse ao mesmo tempo 50 cigarros, e alguém te jogasse molho de pimenta no rosto. Seus olhos começam a piscar e fica um gosto ruim na boca. Para me livrar desta sensação, lavei a boca com um pouco de água que havia levado.

Em seguida, uma formação quadrilateral de policiais continuou no centro da praça. À medida que os manifestantes se dispersaram, reagruparam-se entre grupos que, segundo a impressão que tive, assumiram para si propósitos diversos. Um grupo confrontou a polícia, atirando-lhes pedras, fogos de artifícios, e coquetéis molotov. Outro arrastou para o centro da Av. Ipiranga entulhos, lixos e objetos em geral que estavam nas calçadas aguardando coleta e incendiados em seguida. Teve um conglomerado de pessoas que posicionou-se para bloquear o trânsito da via e, ainda, um quarto conglomerado que saiu pela avenida quebrando bancos, restaurantes e instalações públicas em geral.

No meio do confronto, uma senhora insistiu em seguir seu caminho pela praça, mas as pessoas insistiam em dissuadi-la de continuar, na certeza de que seria ferida se o fizesse. Em pelo menos duas situações a polícia foi acuada pelas pessoas. Os portões da estação do metrô República foram fechados. Um homem com megafone gritava “resistir, resistir, resistir”. O trânsito que ainda restava na Av. Ipiranga ficou desordenado, inclusive, um taxista quase atropelou alguém. Uma agência do Santander e um restaurante McDonald’s foram os primeiros alvos dos manifestantes.

Em certo momento, enquanto os manifestantes seguiam pela Av. Ipiranga, uma formação de policiais militares foi orientada a seguir pela R. Barão de Itapetininga, onde não vi manifestante algum... erro tático da gestão de segurança pública???

Conforme a multidão caminhava, os estabelecimentos comerciais que ainda estavam abertos optaram por fechar as portas. Já na altura da Av. Rio Branco, uma outra agência do Santander e uma do Bradesco foram destruídas. Nessa mesma via, um supermercado Extra também foi quebrado. Três pessoas se posicionaram em frente a um mercadinho, no intuito de alertar os demais a não fazer nada contra este estabelecimento. Em suma, tudo o que era banco e franquia de grande marca foi depredado. Os pequenos estabelecimentos, poupados. Houve ainda uma situação em que vi uma viatura da polícia civil ser quebrada e virada de ponta-cabeça, mas quando um manifestante ameaçou de fazer o mesmo com o automóvel de um particular, o restante da multidão o impediu. 

O vídeo a seguir mostra o inicio da confusão até o momento em que os manifestantes foram dispersados finalmente de vez:




A grande mídia foi categórica em culpar os adeptos do Black Bloc por tudo, criminalizando as manifestações de rua, chamando-os de vândalos, etc. Fiquei 40 ou 50 minutos atrás dos manifestantes filmando e fotografando tudo. Ao voltar para a praça da república, notei que o um efetivo de policiais pareceu ser o mesmo ainda posicionado no local. A polícia teve todo o efetivo necessário para coibir os prejuízos ocorridos naquela noite. Vi situações em que os manifestantes estavam indo para um lado e a polícia para outro.

Na minha opinião, a polícia deixou que os manifestantes saíssem livres pelas ruas do centro da cidade, a fim de criar um fato explorável pela grande mídia golpista e que também pudesse ser aproveitado politicamente pelo Geraldo Alckmin, o qual tem sido beneficiado por uma mudança de escândalos nas primeiras páginas dos jornais. Até agora, ele não deu quaisquer justificativas sobre o escândalo da fraude do metrô. O único beneficiado por este fato foi o Alckmin. De fato, a partir deste dia, a população passou a vê-lo como um “mal necessário”, um partido politico “tolerável”, ao passo que, o “intolerável” não é mais a corrupção na política, da qual o povo se revolta contra, mas sim estes “vândalos e baderneiros mascarados” que quebraram vidros e botaram fogo em lixo. Não estou dizendo que a violência não deva ser reprimida. Mas convenhamos, o que é uma janela quebrada de um banco, o que é uma lixeira de rua feita de plástico sendo incendiada perto do que é roubado do erário público, nos altos escalões do governo???


Em que se pese que a Polícia Militar é uma instituição subordinada à Secretaria de Segurança Pública, e que o chefe desta repartição é um cargo de comissão subordinado ao governador do Estado, acho plausível que a polícia tenha iniciado mesmo o ataque, na expectativa de ocorrer este cenário, uma vez que a bandeira deste “movimento” é justamente o que eles chamam de “ação direta”, sem esperar, no entanto, que justamente seu maior inimigo fosse o maior beneficiário.

Confira algumas fotografias tiradas durante o ato:


















Uma curiosidade da noite: ao voltar para a praça da república, havia uma comoção em torno de uma mulher que havia sido atropelada por outras pessoas. Ela estava confusa e aparentemente havia perdido a memória. Um policial militar, indignado, e em tom de desabafo, chega para mim e diz: "dizem que PM não estuda, pqp, essa mulher nem sabe falar direito!"