quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Rascunho do dia 07.01.2015

Jamais terminei este artigo a tempo da primeira manifestação do MPL deste ano, que ocorreu no dia seguinte. Segue o texto original:




O que esperar amanhã?

Está marcado para o dia 9/01 próximo a primeira manifestação do MPL para o ano de 2015. Depois de uma série de investidas por parte do "poder público", elas esfriaram nos meados dos acontecimentos da Copa em 2014. A partir de então, pelo menos entre os anarquistas, a tentativa foi mobilizar pessoas em prol da campanha do voto nulo e, em seguida, contra a crise de fornecimento de agua.

No cenário político vimos, pelos resultados das eleições - se é que foram contabilizadas de maneira genuína - uma opção da população pela inercia: PT reeleito no governo federal numa margem apertada e, no âmbito de São Paulo, Geraldo Alckmin ganhou com pelo menos 53% dos votos, ou seja, maioria absoluta entre a população local.

A única coisa nova, de 2013 para cá, foram as mobilizações de cunho de direita, mais especificamente a realização da Marcha da Família e, posteriormente, as manifestações que exigiam o impeachment da reeleita Dilma Rousseff.

Fica, portanto, em dúvida se as manifestações ocorridas em Junho de 2013 voltarão com o mesmo vigor nos tempos vindouros.

'A princípio me parece que sim. Se a população tem uma posição inclinada a não ceder seus pontos de vista político, a previsão é de que as manifestações voltarão em pleno vigor. A população ainda encontra-se em estado de choque, estado este em que encontra como meio terapêutico sua participação voluntaria nas manifestações.

Poder-se-ia argumentar de que o Poder Público possui suas armas de "ataque". O tal inquérito 01/2013 instaurado no Deic - o famigerado "inquérito dos Black Blocs" - constitui num banco de dados sobre diversos tipos de pessoas que foram literalmente caçadas pela PM nos anos anteriores, independentemente de terem estas cometido crime ou não, arrastadas ilegalmente 'as delegacias a título de "averiguação", modalidade está de prisão inexistente no código penal deste país.

No entanto, me parece que o tipo de perfil que causa a confusão nas manifestações está organizado há muito tempo e é um tipo que não apenas está preparado e espera o combate contra os policiais militares, como também investe neste tipo de ação.

Eu me lembro em 2013, quando o filosofo Olavo de Carvalho comentou sobre os movimentos estarem "testando a capacidade de liderança" da Dilma Rousseff, isto não me fez muito sentido na época. E, por morar no centro de São Paulo, tive a oportunidade de verificar isto por conta própria.

Infelizmente não tenho aqui salvo, mas me lembro de ter acessado um tal blog anarquista que recrutava pessoas e havia uma frase mais ou menos assim: "quem entra para este movimento tem que estar disposto a enfrentar e lutar contra a polícia, ir pra cadeia ou morrer". Me parece coisa de sociopata, mas algumas pessoas de fato se enquadram neste perfil.

Eh deste perfil que comentou o então comandante coronel Reginaldo Rossi, em uma entrevista para a Rede Globo, de que sentiu haver uma "nova espécie nas ruas". Eu conheci este homem e me pareceu um sujeito negociador e conciliador de interesses. Seu espancamento foi ato covarde, justificado por uma conversa fiada, segundo a qual, um sujeito teria iniciado os ataques após, e supostamente, o coronel ter apontado uma arma na cabeça de uma criança de 9 anos que estaria na manifestação que depredou o terminal Dom Pedro em São Paulo.


Não bastasse o estado de pura alienação que estas pessoas vivem, alguns policiais militares, adeptos da filosofia "também vim para brincar com fogo" não veem outra forma de prazer senão instigar o confronto, xingando e mandando tomar no cu qualquer um que passa pela frente. Certa vez, vi ate um grupo praticar "tiro ao alvo" contra pessoas desarmadas que simplesmente seguravam uma faixa. A impressão que tenho é de que os jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas são o alvo favorito destes policiais, sobretudo os que são da mídia alternativa, pois, sabendo que a repressão será relatada, aumentam-se o clima de rancor e ódio, alimentando-se assim um círculo vicioso ainda sem um fim próximo.

Algumas das pessoas que participam dessas manifestações não tem nada a ver com partido político, conforme o pre julgamento da maioria, Menos ainda são pessoas pagas financeiramente ou de qualquer outra forma. Fosse isto verdade, eu teria visto dinheiro sendo trocado de mãos pelo menos uma vez nas quase 50 manifestações que fui. Estas pessoas não possuem conta bancaria e muito provavelmente a maior nota que tiveram em suas mãos devia ser de R$ 20, se muito. Se não foram pelo dinheiro, então o que as motiva?

Sinto que uma boa parte vem da torcida organizada do Corinthians. Alguns militantes desta filosofia inclusive argumentam que o time foi fundado por anarquistas, juntamente com a bandeira do estado de SP. Veja alguns dos símbolos elaborados por eles, panfletos e fotos de camisetas sendo feitas em série (clique nas imagens para ver melhor):



    

  



Portanto, temos que de maneira cabal um certo número de pessoas dessas manifestações - não a maioria, mas um contingente necessário - possui predisposição para a violência e, mesmo os que não a possuem acabam indo na manifestação do mesmo jeito, pra fazer volume e dar uma certa "cobertura" a esta minoria.

Por outro lado, faz-se necessário reconhecer que estas manifestações são uma mescla heterogênea de grupo de interesses. Boa parte dessas pessoas viram seus pais fazer inúmeros sacrifícios para que tivessem escola e um teto sobre o qual morar. Mesmo uma passagem de ônibus é algo custoso no orçamento semanal - quando existe um. Para pessoas assim o Haddad poderia perfeitamente construir ciclovias nas periferias. Mas a atual política haddadiana visa tão somente criar o espaço para piorar o fluxo de quem tem automóvel. Ha pessoas que estavam procurando emprego em junho de 2013 e, sem encontrar uma oportunidade, deixaram-se levar pelo ódio e inconformismo de sua situação socioeconômica para ir quebrar coisas nas manifestações. Eh por isso que um sujeito sente-se aliviado em arrebentar uma concessionaria da Mercedes-Benz: eh o mais próximo que chegara de um carro que não poderá ter durante uma vida inteira. Eh como se ele estivesse quebrando o carro com um sujeito milionário já sentado dentro...

Além disso, há de se considerar que o PT literalmente perdeu o controle sobre os movimentos sociais. O MPL, por exemplo, não foi criado em 2006 em Porto Alegre como se diz. Aliás, até pode ter sido criado lá, mas em São Paulo o MPL foi fundado em 2011, por anarquistas de um tal grupo chamado "Movimento Punk Libertário", cuja sigla também era MPL e foi apropriada pelo Movimento Passe Livre. Naquele ano de 2011 os punks paulistanos concordaram com o convite - segundo informações colhidas - de uma turma que seria do PTB - Partido Trabalhista Brasileiro. As manifestações de então seguiram o mesmo modus operandi que as de 2013 e 2014. Por que então naquela época o movimento não chamou tanta atenção como aconteceu em 2013? Comentarei isto na proxima postagem sobre o assunto.